As discussões acerca dos rumos do carnaval baiano me deixam intrigado. Tudo está centrado na presença das atrações, em especial das grandes atrações. De onde, para onde e por onde irão os trios elétricos? Ah! Quem irá por onde? Ivete, Daniela, Durval não irão pela Avenida Sete. O muzenza, o ilê e o Malê não irão pela Avenida Octávio Mangabeira. O trio desce ou não pela Ladeira da Montanha? Onde ficarão as televisões? Os artistas precisam ser vistos pelos camarotes dos patrocinadores.
Apesar de idolatrar o carnaval baiano acho que todos estão indo pelo caminho errado. Estão preocupados com a visibilidade televisiva, com lucro dos grandes blocos e camarotes e a estética elitizada, mercantilista e descontextualiza dos “abadás”. Não que todo isso não seja importante, mas não é essencial.
O essencial é revitalizarmos a alegria e a participação popular, justamente os elementos que fizeram dessa festa a maior do mundo. A irreverência das brincadeiras, o colorido da cidade e o espírito de paz e segurança. Carnaval é para brincar e não para brigar. Carnaval é para brincar e não para comercializar.
Apenas para incitar a discussão e a reflexão, imaginemos uma fatalidade indesejável e que Deus não permitirá que aconteça. Se Durval, Daniela, Claudia Leite, Ivete, Carlinhos Brown, Bel e Tomate viajassem em um mesmo avião para um dos desses “inúmeros carnavais fora de época” e sofressem um acidente aéreo, não teríamos mais carnaval na Bahia? O Carnaval só existe se eles existirem? Mesmo consternados com estas perdas irreparáveis, o povo não brincaria nas ruas inclusive reverenciando a memória desses grandes artistas?
Sou fã e gosto de vê-los, mas não por isso devo fechar meus olhos para o fato de que não podemos centrar a alegria carnavalesca somente nos ombros deles. Afinal eles não vão ficar o tempo todo desfilando e animando o povão até o sol raiar. Existem outro elementos que fazem a alegria reinar independente da presença dos mega artistas.
Salvador precisa re-avaliar o carnaval, não apenas como uma situação comercial, mas acima de tudo com um momento de alegria. Não apenas como uma despesa a mais para o governo, mas como um investimento na qualidade de vida para toda a cidade. O carnaval nasceu para nos dar um momento de liberdade social, para podermos extravasar e alivia a pressão do cotidiano macabro que vivemos, condicionado por regras e limites. O carnaval não nasceu para nos frustrar por limitações comerciais.
Uma desse limitações comerciais se expressa pela segregação social entre ricos e pobre, que é incompatível com a essência do carnaval e que precisa ser discutida. Tudo bem que os ricos ou pobres soberbos não queiram “se misturar”, mas estes não podem invadir os espaços do povo, com camarotes e blocos. Tudo bem que a televisão queira mostra o nosso carnaval, mas ditar como ele deve funcionar não.
Salvador precisar ser decorada como antigamente, precisa ter confete, serpentina, mamãe sacode e não mãozinha de patrocinador. Salvador precisa ter batucada, samba de roda, dança afro, axé music, trio elétrico, banda chupa catarro, carros alegóricos, sensualidade sem vulgaridade, irreverência sem agressão, churrasquinho de gato, cachorro-quente, acarajé, cerveja, amor, namoro, romance, praia, sexo, artista suado e falando com o povo e não com a televisão.... Ah! Como pode ser bom novamente o nosso carnaval.
Os blocos, principalmente os de trio precisam ter uma alma e não apenas uma função comercial. Viva o EVA, o Apaches, o Cheiro de Amor, Os corujas, os Filhos de Gandhy, os Internacionais, o Olodum, o Araketu, As muquiranas e tantos outros que nasceram como união de pessoas alegres e não como um produto.
Acho, mas devo estar errado, que quanto mais participação popular e alegria tivermos, mais turistas virão nos visitar, mais hotéis serão necessários, mais ensaios existirão, mais serviços serão gerados, mais empregos surgirão e não o inverso.
Não sou dono da verdade e nem tenho a formula certa para resolver isso, só sei que, como esta não pode continuar. O Carnaval é para o povo e não para bolso, de poucos.
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