Durante anos critiquei a postura disciplinada do motorista que conduz o ônibus que faz linha Doron Barra R1. O cara sempre foi um saco. Até hoje só para no ponto, não dá carona, não permite que ninguém fique parados nos degraus, só permite o acesso pela porta dianteira de pessoas, devidamente identificada e com direito explicitado pela lei. O cara é muito chato! O cara é insuportável!
Todos nós, sem exceções, o criticamos. Seus colegas denominam-no de “baba-ovo”, “piru do patrão”, de “otário”. Nós, usuários, proferíamos e proferimos, as mais variadas piadas e ofensas. Todos criticando o cara apenas por que ele procura fazer o que é certo.
Ontem, pela manhã, mais uma vez peguei o seu ônibus – já deve ser dele, pois dirige a tanto tempo que ele tem esse direito – e a cena foi à seguinte. Em virtude da procissão em homenagem à Santa Luzia, o trafego na Avenida da França no Comércio (fundo do Banco do Brasil), fico lento. Os ônibus fizeram uma grande fila e os veículos pequenos lentamente passavam ao lado. Todos os passageiros que pretendiam descer no Comércio se aproximaram da porta. A minha frente, já na porta, um passageiro, queria que o motorista abrisse a porta para ele descer – fora do ponto – tendo os veículos particulares passando ao lado. Uma cena de puro perigo, que inúmeros outros motoristas de ônibus, diariamente ali no comércio, atendem sem a menor preocupação – muitos passageiros não querem esperar que o ônibus chegue no ponto - . Eu mesmo já pedi para que o motorista aproveitasse o pequeno engarrafamento para descer no meio do trânsito, mesmo correndo o risco de ser atropelado.
O chato, com sempre negou o pedido. Indignado com a negativa, o passageiro, do alto de sua autoridade, disse ao chato que ele também era rodoviário. Como se essa prerrogativa, permitisse a ele infringir as regras, as norma, estar acima da lei. Serenamente, o chato respondeu. – eu sei, eu lhe conheço!, e manteve a negativa. Visivelmente inconformado o passageiro rodoviário - percebi por sua calça/farda que ele era realmente rodoviário – de forma grosseira insistiu mas, o chato o silenciou quando disse: - se eu lhe ajudar, até a sua família vai me processar se você for atropelado.
Profunda e dilacerante assertiva. Nós, brasileiros baianos, tão acostumados a avacalhar com tudo, não percebemos o quanto somos responsáveis pela desordem e pela desvalorização de nossa própria vida, de nossa cidade. Por que respeitar as regras é tão difícil? Por que agir corretamente é motivo de chacota? Por que nós brasileiros baianos consideramos a palavra ordem como uma ofensa?
Resumo. Para esfriar minha cabeça, fui obrigado a tomar cerveja, no Mercado Modelo, tendo como tira-gosto a discussão sobre a baderna de nossa sociedade, a omissão dos cidadãos e conivência do poder público. Que motorista chato!!!!
Acredito que além dos limites impostos pela Lei, existe uma atribuição feita aos seus "administradores", que nesse caso seria o motorista do ônibus, chamado de discricionário.
ResponderExcluir"[A discricionariedade é um poder dado a ocupantes de cargos públicos, e a comparação com o motorista foi apenas para exemplificar]"
É dada a ele (motorista) o poder de fazer ou não uma coisa em pró do bem comum da maioria. Acredito que, abrir a porta do ônibus naquele momento não seria o caso, mas em outras situações a discricionariedade poderia ser utilizada a fim de evitar desentendimentos. ok?
Abraços,
Gustavo Martinez