sexta-feira, 9 de maio de 2014

A FEIRA DO LUXO E AS FEIRAS DO LIXO

Intrigante o empenho, ainda que letárgico, do Governo Estado da Bahia em qualificar a Ceasa do Rio Vermelho. A ceasinha será um verdadeiro shopping de hortifrutigranjeiros, flores, alimentação e serviços, que por sua estruturação parece ser destinada exclusivamente à burguesia soteropolitana.

Enquanto isso, os Mercados de Santa Bárbara, Itapuã e Paripe, as feiras do São Joaquim, de São Miguel, da Sete Portas, Ogunjá, Ceasa do Cia, a extinta Ceasa de Narandiba, dentre outras feiras, amargam o esquecimento, o abandono de suas histórias e a importância para economia popular local.
Estes espaços que poderiam ser perfeitamente requalificados e incluídos nos roteiros turísticos, alavancar a nossa economia e gerar empregos, estão abandonados pelo poder público. Perdem os baianos e os turistas que se distanciam da gastronomia, cultura, história, religiosidade e humanidade existente nestes espaços.

A emblemática Feira de São Joaquim deveria ser um porto de oportunidades na Bahia de Todos os Santos. Possuidora de uma localização estratégica e privilegiada, a beira-mar, com um pôr do Sol estonteante, portas abertas para uma baia de muitas vidas e faces, hoje é sinônimo de sujeira e desordem.
A Feira do São Joaquim deveria receber prioritariamente o tratamento dado a Ceasinha do Rio Vermelho que não possui nenhum dos atributos da feira de Água de Meninos. Mas, essa lógica foi invertida por que os “ricos” preferem frequentar o Rio Vermelho. Vejam quem são e serão os feirantes e frequentadores da Ceasinha e quem são os da Feira de São Joaquim! Para quem o Governo do Estado trabalha realmente? Governa para as grifes!

Quantas histórias e beleza têm a Feira de São Miguel e a Feira da Sete Portas? Quanta construção social e étnica estão guardadas nas pedras que pavimentam suas existências? Quantas lágrimas, sorrisos, solidão, festas, famílias, escravidão e libertação estão contidas por detrás dos olhares mestiços, negros e brancos, vivos e mortos de seus frequentadores?
Por quê tanto interesse em transformar a Ceasinha do Rio Vermelho em um shopping? Por que ela se destina aos Moradores do Horto Florestal, Pituba, Itaigara, Cidade Jardim e outras áreas nobres? Os moradores do Nordeste, Vale das Pedrinhas, Chapada e Santa Cruz são e serão consumidores da Ceasinhas? Não! Estes bairros populares têm suas feiras, como a do Final de Linha do Nordeste. Os pobres foram expulsos silenciosamente da Ceasinha.
As hostes burguesas frequentam as feiras para demonstrar sua distorcida e falsa humanidade, mas querem estas feiras como shopping para serem “instagraniadas”.  Não conseguem viver sem ar condicionado, andar de chinelos, conversar com pobres, sentar em bares e restaurantes populares. Querem glamour e a feira não lhes oferece isso. Feira, oferecer a linda realidade que eles preferem fingir que não existe. Eles têm nojo.
Teremos “happy hour” na Ceasinha? Temakeria? Conversas sobre negócios em restaurantes de Feira? Decidem política na Feira? Marcam jantares na feira? Feira é para pobre!?

O Governo do Estado, silenciosamente, promove o apartheid social em nossa desigual cidade do São Salvador. Enquanto os ricos terão a “Feira do Luxo” os pobres continuarão com as “Feiras do Lixo”.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Prezado (a) Amigo (a)
Suas opiniões são importantíssimas em minhas inquietações e reflexões.
Muito grato por sua colaboração!
(caso deseja um retorno deixe seu contato)